Tese enfumaçada
Luis Fernando Verissimo
Desenvolvi a tese de que certos povos são diferentes dos outros porque passam mais tempo contemplando o fogo. Os povos de climas quentes têm menos necessidade de fogo para aquecê-los, por isso são privados das divagações que vêm com a contemplação do fogo e por isso são menos filosóficos e mais superficiais. Nos climas frios, de tanto olhar as chamas, qualquer pessoa acaba desenvolvendo, se não escatologias ou sistemas ontológicos completos, pelo menos teses enfumaçadas, como esta. Deve-se à contemplação do fogo um certo pendor para a ruminação nostálgica dos gaúchos, que, além das chamas das lareiras, têm as evocativas brasas das churrasqueiras para enlevar seu pensamento, o que talvez explique até a sua literatura. Foi contemplando o fogo de uma lareira que cheguei a essas estonteantes conclusões. Ou teria sido o conhaque?
Os povos de clima quente têm a experiência direta do sol na cabeça, os de clima frio experimentavam o sol armazenado na madeira, portanto o sol intermediado, reciclado pelo tempo. O fogo natural é o sol de segunda mão, quase uma versão literária. Olhar para o sol transformado em fogo domesticado leva a abstrações e ponderações, olhar para o sol original leva à cegueira. Mas tanto o sol vivo no céu quanto o sol ressuscitado na lareira podem destruir o cérebro, um fritando-o e outro levando-o para tão longe que ele se eteriza. Não há notícia de Einsteins em regiões tropicais, mas também não há notícia de cientistas loucos. Abstrações e ponderações em overdose também podem ser fatais, contemplar o fogo também enlouquece.
A combustão da madeira, sendo consumida pelo fogo do sol que absorveu a vida toda, é uma metáfora para a existência: você também é consumido pela que lhe dá energia - mais ou menos rapidamente, dependendo de ser graveto ou nó de pinho. E concluí o seguinte, olhando as chamas: se envelhecer é ir ficando cada vez mais grave, só atingiremos nossa verdadeira seriedade depois de mortos, quando nos juntaremos aos fósseis. Também levaremos energia aprisionada para baixo da terra e seremos como o carvão, o petróleo e os restos degradados de tudo que já viveu, integrados na capa explosiva do planeta - o que pode ser mais sério? Toda matéria orgânica, da jabuticaba ao Papa, almeja isso, essa respeitabilidade subterrânea, essa dignidade de mineral depois da frivolidade efêmera da vida. Do barro viemos e ao barro voltaremos, mas agora em outra categoria, depois da nossa temporada ao sol: a de combustível. Entendo quem prefira a cremação (que é quando a nossa identificação com lenha fica mais completa), mas eu quero tudo a que tenho direito depois de morto. Decomposição, gases - enfim, minha iniciação na irmandade dos inflamáveis.
Olhando o fogo também pensei em seu poder hipnótico e em como ele devia inflamar a imaginação de quem o contemplava, no tempo das cavernas, e via nele fantasmas e presságios. O fogo era, de certa forma, a televisão da pré-história - com uma programação muito melhor.
Da série poesia numa hora destas?!
EM TESE
“O que há num nome?” perguntou o poeta e respondeu uma mulher: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa” seja que nome tiver. Em tese, em tese. Pois se um Ney é um Ney é um Ney há uma distância estelar entre o prefixo Brit e o prefixo Sar.
MISTÉRIOS
Que mistério, o Universo... Trilhões de pontos brilhando num espaço inexplicado. Isso sem falar, é claro, nessa pintinha que você tem do lado.
Domingo, 3 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.